quarta-feira, dezembro 03, 2008

Pseudo biografia

Desde que rasguei o ventre irrompendo a luz
desde que num sopro insólito, num espasmo
exorbito, expurguei d'um corpo o que era pus
desd'esse meu grito esdrúxulo, cheio de sarcasmo
que fez de um orgasmo o peso d'uma cruz

Vim a esse mundo apático, essa vida fátua
esse trilho esquálido, que não me conduz.

Vim a esse tempo estéril, essa casta sórdida
esse mundo torpe que não me contém
Vim como d'uma hecatombe, lasca exaurida
solta e perdida, num espaço aquém.
Vim como se fosse minha, essa vida pérfida
esse mundo fétido, e de mais ninguém.

Dizem que sou fruto (in)útil, resultado (in)válido
de um amor tão pálido, mero querer bem.

Dizem do fulgor que ilude, do amor sarcástico
da pouca atitude, da vida o desdém.

Sou a ordinária soma, o produto módico
a razão inversa da inequação
Sou do santo atributo, do pensar o erótico
no ato irresoluto sou contradição.

E como não bastasse o traço, esse exórdio crasso
nessas linhas vesgas dessa tradução
sou, entregue ao holocausto, vítima do claustro
nesse drama clássico, pura encenação.